Caros visitantes,

espero que vocês divirtam-se muito lendo minhas palavras. Peço, porém, por ser esse um trabalho independente, que não republiquem meus textos - inteiros, partes, frases, versos - sem minha expressa autorização. A pena para crime de plágio é dura, além de ser algo bastante humilhante para quem é processado. Tenho certeza que não terei problemas com relação a isso, mas é sempre bom lembrar!

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quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Escritos, lembranças...

Eu sempre escrevi pra mim mesmo. Era um exercício pessoal, introspectivo. Escrevo desde sempre, eu acho. Sempre fui, artisticamente falando, bastante atirado. Nunca nada me impediu de tentar. Aprendi dois acordes no violão e já estava fazendo músicas com meu primo Gustavo Brito. Mal sabia eu que se tivesse aprendido um a mais já conseguiria tocar metade das músicas de rock e punk, hehe.
Acho que morar em casas com muitos livros e livros em todos os cômodos fez com que as palavras tivessem um lugar especial na minha vida. Sempre gostei de ler e lia coisas que não eram para a minha idade pelo simples prazer de ler. Muitos anos depois eu ouvi que o Saramago fazia a mesma coisa e pensei: “puxa, espero que algum dia eu escreva tão bem quanto ele”. Mesma coisa com o inglês – assim que tive minha primeira aula no colégio (my name is... hello...) eu já pegava a “Time” para ler artigos e não entender nada, claro. Às vezes eu sabia uma palavra ou duas, mas isso não impedia de ficar lá, lendo, lendo.
Saber que as pessoas gostam do que eu escrevo é algo mais recente. Escrevi uns contos quando era moleque e passei pro povo da família e vários disseram que eu escrevia acima da média. Sempre achei que isso fosse paparico pra não me deixar triste e não dei muito bola. Depois passei a ouvir de professores e gostei. Lembro inclusive de estar no colégio, tendo aula de Português com uma professora chamada Elizabete Hein. Estudávamos as propostas de redação de vestibulares e escrevíamos um texto por semana ou por quinzena, não lembro bem. Aí escrevi “Melodia Noturna”, um texto estranho, meio dark, que vou publicar aqui algum dia, talvez até no próximo post. O texto tem uma construção de personagem muito interessante, uma pessoa calma e pacata que se torna assassina. A Bete sempre pedia para que nós lessemos nossa produção para classe e vira e mexe eu era o escolhido. Lembro dos meus colegas pararem de fazer seja lá o que estivessem fazendo para me ouvir ler. E lembro também da expressão deles e da professora enquanto eu lia e tudo no texto se tornava mais estranho. E gostei disso. Provocar emoções.
Provocar emoções sempre foi um objeto de estudo vital. Fazer rir, fazer chorar, fazer emocionar, todo um rol de emoções que eu gostava de provocar nos meus amigos e familiares e gosto até hoje. Durante anos mantive no MSN o apelido cafonérrimo de “Compositor de Emoções”. Até hoje não faço a menor idéia de onde raios tirei isso, mas de uma forma ou de outra, isso explica um pouco do que eu gosto de fazer. Se não em pessoas, com certeza em personagens. Trabalhar a dor, a alegria, o desejo, em histórias quaisquer é muito bom e muito forte.
Ter feito teatro muitos anos me ajudou a entender o ser humano, suas reações, seus medos e preocupações. Ter feito Letras só agregou conhecimento e base de análise. Quem sou eu para falar de ser humano? Um pivete moleque chato metido a escritor? Talvez, mas tenho certeza de que posso entender o ser humano e todos podemos porque somos, afinal, humanos.
Aí decidi que queria escrever, claro, e queria também que os outros lessem. E criei meu primeiro blog – Ser que Ama – que ainda está ativo e o link está aqui do lado. Escrevi lá por um bom tempo e gostava de ter meus textos comentados. Me sentia importante e me sinto ainda, toda vez que alguém comenta o que escrevo, tanto nos comentários do site como ao vivo. Por um motivo besta (esqueci o raio da senha), não consegui deletar o outro blog e nem mais postar. Aí fiz esse aqui, o Ziggy, meu querido Ziggy. Esse blog é um dos meus xodós e os textos que escrevo aqui são pensados, escritos, montados com muito carinho, mesmo que muitas vezes o computador me dê vários bailes.
E fui ouvindo de várias pessoas que elas eram minhas fãs. Fãs do meu violão, do teatro eu gostava de saber, claro, mas fãs da minha escrita – isso foi o que me deu prazer maior. Eu acho que escrevemos, como diz a grande maravilhosa Clarice, que escrevemos para salvar a vida de alguém e talvez até a nossa própria vida, mas claro que queremos ser lidos. Lidos, admirados, publicados, comprados, transformados em filme, hehe. E saber que eu tinha fãs me deu uma sensação de dever cumprido. Quer dizer aquilo que começou como algo pessoal, solitário, assim o continua, mas pelo menos agora tenho pessoas para lerem meus contos e gostarem. E pedirem mais. E perguntarem porque não ando postando no blog.
Minha namorada, Karina, é uma delas. Ela sempre me pergunta onde estão os textos novos, e os poemas, e faz comentários sobre eles. Ela tem uma tendência a gostar dos textos mais estranhos, até os mais violentos que eu ficava meio culpado de escrever. Agora sei que mesmo esses tem uma fã e isso me deixa mais livre pra escrever e escrever e escrever. Ela agora assumiu esse blog também e está me ajudando a deixá-lo cada vez melhor. O banner novo, as cores novas, as formatações, organização, tudo isso é mérito dela! Eu, particularmente, acho que está tudo lindo! E estou muito orgulhoso de ver esse blog cada vez mais bonito.
Queria fazer um agradecimento a todos vocês que me acompanham, que torcem por mim, seja na literatura, na música, no teatro, que lêem as minhas coisas ou escutam minhas músicas ou vão me ver nos palcos (que eu ando meio afastado, mas ainda posso voltar). É tão bom saber que gente que está longe continua me acompanhando e comentando, assim como as pessoas que estão mais perto.
Queria fazer aqui também um agradecimento especial a Karina, meu amor, por ter transformado esse blog em algo ainda mais legal e ainda mais bonito.
Eu estou curtindo muito as mudanças todas e vocês? Já leram o blog hoje?


Saudações!

R.

Ps: Quer entrar em contato comigo e não sabe como? Fácil. Mande um email para ricamaciel@gmail.com que eu respondo o mais rápido que der, ok?

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O 65 º aniversário de David Bowie: Por que a lenda do Glam Rock se contenta por ter se aposentado dos holofotes

por Barbara McMahon, Daily Mirror, 07/01/2012


Observando as prateleiras da elegante livraria McNally Jackson, no bairro de SoHo, em Nova York, um homem em um casaco cinza e sobretudo sóbrio sequer merece um olhar dos outros compradores. Cliente regular de uma das poucas livrarias independentes ainda restantes na cidade, onde, na maioria das vezes, compra livros sobre arte, o homem faz brincadeiras com os funcionários, antes de adquirir, dessa vez, alguns DVDs. Ele, então, retorna às ruas movimentadas de Manhattan e desaparece anônimo na multidão.
Quase ninguém nota que o homem com a mochila para computador pendurada casualmente sobre o ombro é David Bowie, o padrinho do Glam Rock e uma das mais enigmáticas lendas do rock'n'roll – e é exatamente assim que ele quer, pois o roqueiro ancião, que amanhã completa 65 anos e torna-se oficialmente um pensionista, aposentou-se dos holofotes e se contenta em viver sua vida tranqüila como um marido e pai. Acredita-se que Bowie - cujo nome verdadeiro é David Robert Jones – não escreve uma canção inédita em nove anos.
"Ele não está mais interessado", diz um amigo. “Seus dias são muito calmos. Ele lê muito, ele assiste filmes, pinta. Ele pega sua filha na escola na maioria dos dias e tem um ar de grande contentamento. Ele não tem nada a provar e viver uma vida normal pela primeira vez, é – para ele – muito exótico e muito atraente. Ninguém trabalhou e tocou mais do que David. Ele sente que ganhou o direito de fazer exatamente o que lhe agrada.”
No mês passado, uma vídeo de “The Jean Genie” no Top of The Pops ressurgiu depois de 38 anos. O corte do cabelo vermelho-fogo ao estilo cacatua, aparência andrógina e os estranhos figurinos ainda chocam, mesmo nestes dias de Lady Gaga.
A triste Grã-Bretanha dos anos 70 ficou chocada e foi seduzida por esta forma de vida alienígena, um rapaz do sul de Londres desesperado pela fama. Articulado e com um senso de humor seco, Bowie sabia como causar tumulto.


Desesperado para tirar Mick Jagger de seu pedestal de Pior Garoto do Reino Unido na época, Bowie declarou maliciosamente: "Eu acho que Jagger ficaria espantado e surpreso se ele percebesse que para muitas pessoas ele não é um símbolo sexual, e sim uma imagem de mãe." Miaow . Os dois mais tarde se tornaram amigos - mas foram ferozmente competitivos. Bowie agora olha para sua juventude ansiosa com diversão - embora ainda guarde todos os figurinos daqueles dias selvagens.
Quando encontrou o estrelato que ele ansiava por meio de sua estranha persona Ziggy Stardust, provou um amargo fruto. Bebida, drogas. Meninas, meninos. Bowie apreciou excessos em todas as áreas.
Enquanto mudava de personagens, numa tentativa de ficar um passo à frente – Major Tom, Halloween Jack, The Thin White Duke – ele se tornou viciado em cocaína durante uma década depois entregando-se ao alcoolismo. Todo o tempo ele manteve uma ética de trabalho feroz e produziu clássico após clássicos de “Ziggy Stardust” a “Aladdin Sane”, de “Station To Station” a “Low” e “Scary Monsters”.
A criatividade transbordava dele em sua quinta década de vida, mas os anos de corrida para ficar no topo junto com a resposta de seu corpo ao anos de drogas, bebidas e abusos tiveram uma reviravolta dramática. Um casamento feliz com a supermodel etíope Iman e a filha Lexi, agora com onze anos, o fez repensar.
“As pessoas esquecem o quão duro David trabalhava", lembra o amigo. “Ele sempre foi ambicioso e tinha muitas falhas antes de Ziggy ter lhe dado sua grande chance. Em seguida, ele trabalhou como um cão por 30 anos, então ele se sente muito confortável em tirar o pé do acelerador. Não há nenhuma agonia secreta ou medo do fracasso que o tenha levado a isso. Ele acha que o rótulo 'roqueiro recluso' muito divertido.”


Casa para Bowie é uma cobertura de 5 milhões de libras na Baixa Manhattan, de onde Iman assistiu os ataques de 11/9 horrorizada, enquanto o marido trabalhava na parte norte do estado. De acordo com uma revista sobre casas e propriedades, eles gastaram uma pequena fortuna decorando o enorme apartamento, que tem terraços, lareiras a lenha e pés direitos de quase oito metros de altura.
“Ele optou por uma aparência antiga inglesa, com tons de verde e couro e camurça e painéis de madeira escura”, disse uma fonte. "É a última coisa que eu esperaria dele.” Ele também tem um retiro nas montanhas de Catskill, a duas horas de carro de Manhattan. Uma década atrás, eles gastaram 750 mil libras em uma propriedade de 64 hectares em uma parte isolada do país, perto da cidade que já foi a Meca da Música, Woodstock. O refúgio tem paisagens arrebatadoras, hectares cobertos por bosques e oferece completa solidão de uma estrela do rock reclusa.
A transformação de Bowie de roqueiro alienígena a papai-sempre-presente deu-se após um ataque cardíaco durante um show na cidade alemã de Scheeßel em 2004. Ele tinha estado na estrada por dois anos promovendo seu último álbum de estúdio, “Reality”, na esteira de constantes viagens, e duas horas e meia por noite provaram ser tanto mental como fisicamente exigentes.
“Ele pensou 'o que po*** eu estou fazendo?’”, explica o amigo. “Ele tinha o dinheiro. Ele tinha feito a fama. E tudo que ele amava - Iman e Lexi - estava em sua casa em Nova York. Então ele parou.”
Enquanto ele defende novas bandas como Arcade Fire e TV On The Radio e goza de concertos de música clássica no Lincoln Center de Nova York, a música já não é uma parte crítica de sua vida. Sua primeira peça pública de atividade criativa em uma década aparecerá em outubro, quando ele publica Bowie Object, um projeto tipicamente peculiar.
Ele escolheu 100 objetos significativos de sua vida que serão fotografados e acompanhado por explicações sobre o porque eles foram uma influência. Uma Bowieana mudança no conceito de autobiografia.
O uma vez aluno da Escola Técnica Bromley, onde, adolescente, ele estudou design gráfico e arte, é um generoso e bem informado patrono das artes. Ele tem uma coleção muito admirado da arte britânica do século 20 e mantém um olho afiado para artistas novos.
Teatro, um de seus primeiros amores e uma inspiração para muitos de seus personagens, permanece central em sua vida.
Ele também é obcecado em fotografar o rápido desaparecimento dos edifícios industriais de Nova York, e foi um grande apoiador do grupo que salvou a High Line – linha férrea elevada da cidade – agora um espectacular parque urbano.
Preocupados em manter um low profile, Bowie raramente vai a eventos de tapete vermelho, mas ele é um marido companheiro para sua esposa, que tem a suas próprias marcas de tratamento de beleza e roupas. A última aparição pública juntos foi em abril, em um jantar beneficente.
Além de refeições ocasionais em restaurantes discretos, como Indochine e Babbo, eles ficam em casa. Desde de seus problemas cardíacos, ele cortou frituras - ele sente falta de uma boa fritada no período da manhã - mas ainda devora Torta do Pastor da sua mulher.
Ele é um pai entusiasmado, ajudando sua filha com a lição de casa e tocando piano e bateria com ela em seu apartamento. Ele conheceu Iman em 1990, após serem apresentados pela cabeleireira mútua. Bowie diz que foi amor à primeira vista. "Eu estava nomeando os filhos na noite que nos conhecemos...", ele recordou mais tarde.
Eles se casaram dois anos depois e sua ansiosamente aguardada filha Alexandria Zahra Jones, apelidada de Lexi, veio em 2000. O casamento com Iman acalmou Bowie. Ele tornou-se, em suas próprias palavras, "uma máquina limpa" e agora se abstém de drogas, álcool e cigarros, que já foram uma vez sempre presentes.
As ofertas continuam a vir ao seu escritório, na West 57th Street, todos os dias. Mas seu gerente de negócios de longa data Bill Zysblat e sua assistente pessoal Coco Schwab estão sob a instrução de não passá-las para Bowie.
“Ele gosta de ser normal”, acrescenta o amigo. "As ofertas têm sido tentadoras, em termos financeiros, mas nunca foi apenas sobre dinheiro com o David. Ele se atualiza nas últimas tendências da moda e da arte, mas não tem nenhum desejo agora para voltar para a labuta diária.”
“Neste estágio em sua vida, Bowie diz que fica feliz por passar tempo com sua família e por ser relativamente anônimo nas ruas de Nova York.
“As pessoas daqui são decentes nas interações com celebridades”, disse à revista New York alguns anos atrás. "Recebo o ocasional 'Yo Bowie' , mas é isso."
O Homem Que Caiu Na Terra está relaxando em seus Anos Dourados.

Traduzido e reeditado por Ricardo Maciel

Vida Longa ao Mestre!


David Bowie, o mestre. Parabéns pelo seu aniversário! 65 anos de genialidade!


Isso é o que eu vou fazer com o meu filho algum dia, se a minha futura esposa deixar! ;-)

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Devaneio

O casal entrou na padaria com caras de poucos amigos. Poucos, não. Eu diria raros, corajosos e bravos amigos. Sei lá se era verdade, mas eles estavam fazendo uma cara tão feia que nem te conto. Eu acho é que eles não tinham amigo nenhum, isso sim.
Estavam viajando, acho que voltando da praia ou algo assim, mas isso era apenas um chute. Não sei bem porque, mas eles estavam com aquela cara de quem foi a praia e estava chovendo, sabe? De quem comeu e não gostou? Cara de quem lambeu sabão, sei lá... Traziam o filho pequeno em um carrinho todo bem cuidado, tão delicado que era difícil crer que o casal e o carrinho pudessem estar no mesmo ambiente. Eles eram como pólos negativos, se repelindo o tempo todo – e isso que o carrinho não tinha nada de positivo – acho que nem a física explicaria aquele fenômeno. Eu não entendo nada de física, mas o máximo aquela coisa de quântica, não quântica, orgânica, inorgânica, sei lá eu.
O pai chegou falando alto, esbanjando moral e vomitando autoridade. Os garçons estavam assustados e ninguém queria atendê-lo. O dono da padaria veio resolver a questão e a mãe começou também a brigar, dizer que o local era péssimo, a pior padaria do mundo, que eles já tinham viajado o mundo todo e que ela sabia o que estava falando, que aquele lugar não valia nem um saco de bosta de camelo. Ela também gostava de esbanjar, aparentemente, arrogância, no caso.
E eu continuei tomando meu café com leite placidamente. Eles lá se engalfinhando e eu só assistindo. Se desse briga, eu entrava no meio para apartar, mas enquanto era só pavonice eu nem quis sair do meu lugar. Olhei a criança – um bebê fofo desses de cartaz – e ela sorria, alheia a tudo. O mundo dela parecia muito divertido. Ela estava bem e exalava felicidade, apesar da raiva que embebia seus pais. Ela era feliz – mesmo com pais loucos como aqueles – e era responsável pelo amanhã. Essa criança vai crescer e pode até virar uma pessoa do governo, importante, um empresário bem sucedido, não sei.
O que sei é que aquele sorriso em meio a briga me fez bem e me fez crer que o amanhã vai ser bom. Crianças felizes mesmo nas adversidades podem dominar o mundo.

Quero crer em um amanhã que seja bom. Sempre. Principalmente no fim do ano.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

A Cantora de Ópera

A cantora pousou as flores na mesa de seu camarim. Eram rosas vermelhas lindas que lhe haviam sido entregues por um admirador secreto, bem ao estilo de filmes de mistério. Os fãs, extasiados, tinham acabado com seus últimos restos de energia. Agora – sentada em sua cadeira de madeira indiana – olhava-se no espelho e sorria. A ópera fora um sucesso. Crítica e público. Os maiores jornais da capital falavam de sua performance, igualando-a à de Maria Callas, Monserrat Caballé e tantas outras. Achava que os críticos exageram um pouco, mas não podia conter a felicidade.
Ouviu o ranger da porta e assustou-se. Virou para ver um estranho homem vindo em sua direção.
“Acalme-se, senhora, sou apenas um velho amigo, por assim dizer, um fã. Chamo-me Arthur Katmadavos. Como vai?”
“Estou bem, estou feliz, acho que agradei, não foi? Ouço meus fãs gritarem meu nome e suas vozes se multiplicarem. Isso me deixa extasiada, mas a que devo a honra de sua visita, senhor Katmadavos?”
“Gostaria de conversar com a senhora sobre negócios, cara Prima Donna. Veja, estou começando um teatro novo aqui em Paris, é um novo conceito. Eu e meu grupo achamos que o gênero ópera está um pouco ultrapassado e os homens não se interessam por ele, somente mulheres e afeminados.”
“Que horror! Como pode fazer tal afirmação logo após ver o sucesso de minha produção?”
“É um sucesso agora, senhora, mas posso garantir-lhe que não passará de uma semana. É um suicídio artístico.”
Ela ficou intrigada. O que aquele homenzinho de casaca poderia oferecer-lhe? Ela era, como todas as primas donna, viciada em sucesso e fama e glamour e sempre queria mais e mais ser conhecida e amada por todos. Foi até a penteadeira, acendeu um cigarro e soprou a fumaça no rosto do convidado inusitado.
“E o que tens para me oferecer então, caro homem?”
“Fama, sucesso e glória, que sei que é o que procuras, senhora, e algo mais se não aceitares minha proposta.”
        “Explique-me sobre esse espetáculo”, disse ela, fazendo círculos com a fumaça.
“É bastante divertido e chamaremos de ‘Vau de Ville’. As moças – sim, várias – se vestirão com roupas atraentes e cantaram. Mais de uma vez levantaram as saias para que os homens vejam suas intimidades. Garanto que isso fará de nós uma dupla de sucesso. Ter uma artista de vosso quilate em nossa produção é tudo o que precisamos. Quanto mais bêbados virem mulheres nuas – ou quase nuas – mais eles pagarão por isso! É uma idéia genial! E põe pro lado essa bobagem de ópera”
“Como ousa me fazer tal proposta? Pensas que sou uma prostituta para me mostrar-me desse jeito? Retire-se já! Indecente!”
E ela foi em sua direção para enxotá-lo do quarto, mas o homem já estava esperando essa reação e ele segurou seus braços, não com força, mas firmes.
“Acalme-se, senhora, é uma proposta válida! Seria vanguardista, eu sei, mas tenho certeza que em muitos anos seríamos alçados aos pilares da glória, como já lhe disse!”
E ela, furiosa, tentava desvincilhar-se de seus braços fortes, mas ele a mantinha muito próxima, com suas bocas quase coladas. E ele lhe deu um beijo forçado, dolorido e disse:
“Quero que sejas minha. Pouco importa o que fazes, quero que sejas minha. Falei aos guardas que entraria aqui para fazer-lhe uma proposta, mas na verdade queria estar perto de ti. Fui eu que lhe mandei as rosas, sou eu seu admirador secreto. Perdoe-me por minha proposta indecente, mas ainda acho que poderíamos ter sucesso com isso.”
Ela estava chocada, sem reação. Um homem havia invadido seu camarim, feito-lhe uma proposta horrível e beijado-lhe em pouco menos de quinze minutos. Seu coração palpitava e seu ar era rarefeito. Aquele homem era estranho e a simples visão dele dava-lhe asco.
“Não quero nada com o senhor, ponha-se daqui para fora! Ou chamarei os guardas!”
“Acalme-se, senhora, lembre-se que ainda tenho outra surpresa caso não me aceites”
“Não lhe quero, estúpido, quero que saias daqui imediatamente! Rua! Rua para dementes! Rua! Suma!” E ela berrava e berrava.
“Não gostaria que fosse assim, mas a senhora não me deixa escolha”
E ele, gracioso e cruel tal qual um cisne negro, tirou do bolso um pequeno punhal prateado e apontou para ela.
“Se não serás minha, não serás de mais ninguém e viverás para sempre na escuridão.”
Os olhos dela esbugalharam-se. O medo arrepiou-lhe os cabelos. O homem veio com força em sua direção e segurou suas duas mãos para impedi-la de agir. Usou o punhal para cortar as alças de seu vestido, revelando seu corpo inteiro. Com um soco, ele a jogou do outro lado da sala. Agarrou-a pelos cabelos, dizendo:
“Levanta-te, vagabunda. Pensas seres tão importante e onipotente a ponto de zombares de um mago poderoso? Sou senhor de muitos poderes e, como gatos, gosto de brincar com minha presa, antes de devorá-la”
O homem, agora com uma altura diferente e feições tão estranhas, vindas não sabe-se de onde, tornara-se outra pessoa. Sentou na cadeira de madeira indiana e passou a usar seus poderes para controlá-la. Fez com que ela cantasse para ele, dançasse para ele. Usou de sua força para que ela lhe desse prazer, um prazer violento, sujo e forçado, mas que pareceu satisfazê-lo. E ele ria. Dava tapas nos seios dela e ela chorava.
Chorava tanto que o irritou e ele lhe arrancou a voz. Ela desesperou-se ainda mais, tentou correr, tentou fugir, mesmo nua, não se importava, mas as portas estavam trancadas por dentro e ninguém parecia ouvir seu martírio. Rezava a Deus e perguntava porque ele a fazia sofrer tanto, mas até Deus parecia calado e distante.
Quando cansou-se, o senhor Katmadavos, agora transformado no diabólico Kripkato, o mago, teve um único ato de compaixão. Deixou que a cantora escrevesse uma carta de despedida ao seus fãs e matou-a com o punhal cravado em sua garganta.
Ela foi encontrada nua, no chão de seu camarim, com o punhal na garganta e  foi levada ao cemitério por funcionários da ópera. Foi venerada por milhões em seu funeral.

Corrente

Um dia ele saiu de casa e não voltou. Disse que ia comprar cigarros no bar da esquina e não voltou. Não era longe, ele deveria estar logo de volta pra casa, mas não veio. Ela andou pela casa, olhou os quartos, os retratos todos expostos na mesa de madeira da sala. Os filhos já eram criados, todos trabalhavam longe. Seus filhos já tinham filhos e eles, claro, netos.  O cabelo dela nunca ficava branco graças a uma amiga que tinha uma tinta mágica lá no salão. O troço tinha um nome estranho, só podia ser coisa de mágico mesmo, “Kesting”, “Casting”, ela não sabia bem, nunca fora muito bem nas aulas de inglês da escola da igreja.
Ficou acordada a noite toda, esperando. Respirava ansiosa, nervosa. Ela não gostava muito de respirar, aquilo a fazia parecer viva e ela estava quase morta de saudade. O tempo passou, as horas se martelaram em minutos e segundos. Os ponteiros do relógio da sala pareciam carregar o peso do mundo inteiro. E ela não sabia de nada.
Deu uma semana. Um mês. Vários meses. Os filhos procuraram em todos os lugares possíveis, ligaram para a polícia, pros amigos, pros bares, pras escolas, bancos, prefeituras e nada. Nem traço, nem rastro, nem cheiro. Nada.
As buscas foram se tornando escassas, era difícil procurar uma pessoa que não deixara nada para trás. Não havia pistas, nada que levasse ao sumido. Os netos choravam, os filhos lamentavam e ela segurava a barra de todos, com um sorriso cinza no rosto. “Ele vai voltar”, dizia ela, “eu sei que vai”. Ela rezava para Nossa Senhora Desatadora dos Nós e Santo Expedito com fé fervorosa. Rezava por ele, pelos filhos. E nada.
Um dia ela também saiu de casa e foi procurar por ele nesse mundão de Deus. E nunca mais voltou. Parece que os dois foram engolidos pelo nada e depois de um tempo pelo véu do esquecimento.
A casa foi vendida, pintada, reformada e uma nova família foi morar lá. O pai era um trabalhador sério, competente, querido por todos.
Um dia ele saiu de casa e não voltou. Disse que ia comprar cigarros no bar da esquina e não voltou.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

"Se você olhar bem para o teto, perceberá uma rachadura. Há uma rachadura no teto. Nunca havia parado para vê-la. Ver a rachadura. A vida nos leva por caminhos tortuosos e falta de tempo que nem olhamos para cima. Vida. Eu até tinha uma vida. Uma vida cheia de compromissos, de afazeres, de vida enfim. E agora...
Eu era feliz, contente, ria de tudo, mas agora as risadas morrem nas sinapses cerebrais, nem chegam ao rosto. Este rosto sujo que nem me lembro mais, senhores. Nem sei ao certo porque isso acontece agora, nem sei mais porque e como alguém poderia esboçar sorrisos frente ao grande nada que é a tal vida. Trancado nesse quarto escuro, as lágrimas são minhas mais assíduas companheiras. Escorrem pela face e pingam no chão, formando uma coroa. Eu lembro de fotografias feitas em preto e branco que mostravam esse fenômeno natural. Tinha visto em um livro da escola, eu acho, que sei eu.
Essa cela é escura. Meu refúgio é uma mesinha de madeira podre e um bloco de papéis amarelados que uso pra escrever. Foi o que consegui. Aqui as regras são restritas. Nada de diversões, nada de arte. Se o diretor chefe soubesse que eu já fui artista, talvez me colocaria mais isolado ainda do mundo. Eu era poeta. Achava o amor maravilhoso. Agora nada me salva. Eu acho que os poetas só escrevem se estiverem felizes. Mesmo os que escrevem os mais tristes poemas deviam estar tristes. Parece que é impossível escrever sem beber grandes goles da tristeza que nos permeia.
Mandaram me prender. Eu acho que incomodava algum figurão. Nunca vi a justiça funcionar nesse país. Antes de ser preso, eu vi ser solta uma menina tão bonita quanto cruel ser solta, mesmo sendo assassina confessa do assassinato dos pais. Mesmo assim, solta.

E eu?
Preso.

O carcereiro está batendo na grade da cela. Acho que é hora da comida ou algo que pareça com comida. Uma massa de arroz com batata e traços de carne. Eu estou tão isolado que minha cela tem, além de grades, uma grossa porta de ferro. Só posso ver o mundo através do buraco da fechadura. Não sei porque fui preso. Só fico a chorar e soluçar e escrever. Nada mais. Durante toda a minha pena. Qual? A eternidade. Preferiria morrer. Mas sei lá eu."

Há alguns anos, comecei a escrever uma peça de teatro que se chamaria "Caminhando". Estudávamos o período da ditadura no Brasil e eu pensei que poderia escrever algo sobre o período. Fiz pesquisas, li relatos, vi alguns vídeos e, claro, ouvi muita música. No fim das contas, outra pessoa acabou escrevendo o texto. Vi-me então com uma peça começada e levemente delineada. Sem fim. Escrevi também algumas canções para o espetáculo, sendo que duas delas foram de fato usadas. A peça fez sucesso nas suas - duas - apresentações. Hoje revendo esse material, vejo que as canções não são assim tão boas quanto eu achava, mas isso é normal. Esse texto, porém, tem algo que ainda me cativa. Acho que está mal escrito e clichê, mas me chama a atenção por algum motivo. Ainda vou voltar a esse assunto e criar um espetáculo interessante! "Caminhando" é, claro, homenagem à canção de Geraldo Vandré que conclamava os brasileiros a caminharem e cantarem e seguirem a canção, pois eram todos soldados, braços dados ou não.